Pronunciamentos de Mario Covas


ENTREVISTA COLETIVA DE MARIO COVAS NA SALA DE IMPRENSA DO INCOR(INSTITUTO DO CORAÇÃO).


Entrevistado: Mario Covas Junior Entrevistadores: Local: São Paulo – Incor - Instituto do Coração, na Sala de imprensa instalada no andar térreo do prédio 2 do Incor. Data: Quinta-feira, 30/11/2000 Duração: aprox. 30 minutos

Transcrição: Tiago Navarro Local e data: São Paulo de 11/04/2009 a 27/04/2007 Revisão: Raquel Freitas Local e data: São Paulo 27/04/2009

G – Boa Tarde.

R – Boa Tarde.

G – Tive de descer correndo ai para vir conversar um pouco com vocês para mostrar que estou mais longe do fim do que podem pensar. Desde o início do processo, nós temos tido uma conduta que reproduz o que vem acontecendo. Os médicos estão autorizados, mais do que isso, estimulados a contar as coisas tal qual elas são. Mas, parece que continuamos na prática de acreditar pouco na verdade. Então eu vou deixar a iniciativa com vocês, para vocês falarem, quem sabe ai ao longo do caminho surja alguma coisa que tenha alguma importância a falar. Se eu tiver alguns momentos de emoção acho que vocês serão capazes de compreender isso. De qualquer modo, vamos ver como é que a gente se salva disso. Já é a segunda vez que eu faço isso, então não esta muito ruim. Quem começa?

R- Janice do Jornal O Globo. O Senhor superou bem em 1998, a primeira cirurgia e a primeira pergunta da gente, que fica muito satisfeito de ter o senhor aqui é saber o que o senhor esta sentindo e como o senhor esta passando depois de uma semana da segunda cirurgia?

G- A recuperação da outra demorou muito mais tempo para recuperação do que esta. Na outra nós ficamos aqui, depois da operação, durante quatorze dias e até mesmo eu pedi para não sair porque era Natal e achei que saindo nessa data eu encontraria tanta gente que isso afinal mexeria com a sensibilidade da gente. Essa não. Ontem (dia 29), fez nove dias da operação, cirurgia que envolveu mais pontos do que aquela, envolveu uma parte do intestino, uma parte da bexiga...Na bexiga menos mas, de qualquer maneira, eu continuo tal qual da outra vez com um “cachorrinho” ao lado. (O Governador mostra a bolsa da sonda vesical). Mas eu acho que correu tudo tão bem, tão extraordinariamente bem, e de tal maneira a gente recebeu novamente uma solidariedade tão grande que é uma coisa quase inenarrável. Caminha tudo muito bem. Eu não tenho nenhuma solicitação pessoal no sentido de ir embora hoje, ir embora amanhã, ou depois de amanhã. Engraçado que da outra vez era para eu ir embora na véspera do Natal e eu pedi para ficar até depois. Há muito pouco que eu possa produzir na rua numa circunstância dessa. Por outro lado, ficando aqui é sempre um descanso, é receber um atendimento pronto. As camas são muito ruins, eu não aconselho a usá-las, o que aliás não é vantagem nenhuma porque todos os equipamentos hospitalares são muito ruins para o paciente, mas como a gente esta aqui pelo SUS, não dá nem para reclamar. Eu acho que as coisas correram bem, muito bem, a operação foi feita na Terça-feira, no segundo dia a gente andava pelo corredor e pelo quarto e, portanto, de lá para cá foi uma sucessão de melhoras. Se vocês me perguntarem se eu quero ir embora hoje, eu não quero, e se vocês me perguntarem se eu vou embora amanhã eu não sei. Eu vou embora o dia em que os médicos disserem para eu ir embora. Eu não discuto. Eu não discuto nenhum dos aspectos ligados à parte técnica, operacional, pois esse é um tema do qual eu não transito bem. Eu só entro com o corpo e, graças a Deus, não entro com a alma. Mais uma vez eu tenho tanto para agradecer para tanta gente que as palavras são difíceis de traduzir o que a gente sente. Alguém falou ai?

R – Governador gostaria de saber se com esses problemas que o senhor esta enfrentando, se o senhor tem acompanhado o noticiário os problemas do Estado? Que problemas tem chamado a atenção do senhor?

G - Tenho. Como é que chama aquilo que começa a pipocar em todos os lados?

R - Urticária...

G - Não que urticária nada, câncer dá em todo lugar. Como é que chamam isso?

R - Metástase...

G - Eu li que o Jornal de São Paulo publicou que eu tava com isso. Alias manchete de primeira página. Bem, não é bom a gente ler aquilo, sobretudo quando não é verdade. Mas tudo bem, o que é que vai se fazer? Faz parte do jogo. A mim em particular faz mais parte do jogo, porque além de estar passando por um “tramite” eu sou político, portanto, a gente tem que suportar certas coisas com uma certa estoicidade. Da qual os outros, normalmente, estão livres. Diga.

R – Em relação a outros assuntos, há algo que o senhor gostaria de falar especificamente?

G - Quais assuntos?

R - Política nacional.

G - Alguns sim. Porque diariamente eu leio clipping. Alias estou lendo até muito mais o clipping do que lia antes. Porque estou num estado ocioso que me permite fazer isso. Então quase que eu leio o clipping inteiro. Ainda hoje li o clipping inteiro. Você esta querendo se referir ao Hospital da Mulher? Se é faça a pergunta. Não. Então qual é o problema político que você quer perguntar?

R - A imprensa inteira, vários jornais, O Jornal do Brasil deu destaque, O Globo deu, O Cidade deu, de movimentação de possíveis candidatos para 2002, né? Praticamente todos os jornais na última semana trouxeram entrevistas e articulações em relação a esse assunto...

G - É inevitável isso. O tempo vai se extinguindo, portanto, a movimentação vai acontecendo. Não há muita novidade no setor, a novidade mais recente que talvez tenha havido foi a candidatura, do meu conhecimento, foi a candidatura do Pedro Simon, que é uma figura pela qual eu tenho muita admiração.

R - O senhor acha que esta faltando agressividade no PSDB nesse momento de iniciar uma articulação?

G - Você sabe que eu ouvi essa conversa há dois anos atrás quando eu fui candidato a governador? E esta sendo repetida por você agora nas mesmas palavras. Por que falta agressividade ao PSDB? O que falta ao PSDB que os outros têm? Não tem ganho a eleição em alguns lugares? Precisava ter ganho a eleição em outros lugares? Essa é a roda da vida, se não fosse assim não precisava de democracia. Senão o cara ganhava a eleição uma vez e ficava o resto da vida. É assim mesmo. Mudam, os atores são substituídos, embora o palco fique o mesmo. E, portanto, a coisa vai se sucedendo normalmente. Eu acho que no caso específico do meu partido os nomes não são diferentes daqueles que tem sido lembrados sempre. E, portanto, nós temos que, embora tenhamos outros nomes, e parece que alguns deles caminharam com mais rapidez. Até menos por força deles, quer dizer, não foi iniciativa deles fazer isso acontecer. Aqueles companheiros começam a falar nomes. Não falaram muito tempo no meu, não é porque eu tenha querido, pois se há alguém que faz dois anos que não seria candidato sou eu, portanto, meu nome foi lembrado durante muito tempo. Então, eu acho que PT, certamente, terá seu candidato. Uma novidade que eu também não sabia é que o Suplicy vai ser candidato a presidente e as demais forças não estão muito equacionadas ainda no ponto de vista se caminham sozinhas. Olha, eu tenho falado muito nas entrevistas que eu não acreditava que se mantivesse aquele status quo da eleição anterior. Isso pela razão mais óbvia do mundo, porque o momento eleitoral é o momento que os Partidos querem caminhar. E, portanto, eles caminham apresentado candidatos e tentando ganhar a eleição, isso é legitimo, não tem nada de extraordinário. Eu acho que a gente vai ter que fazer um longo caminho para chegar lá. Nós estamos há quase dois anos para eleição, então acho que tem muita coisa para rolar. Há eleições estaduais, concomitantes que são atraentes, são atrativas, são significativas e importantes, e, portanto, tudo isso vai acontecer concomitantemente. Não vi muita novidade naquilo que li do ponto de vista do quadro sucessório.

R - Governador, duas perguntas: primeiro, se o senhor conversou com o Presidente Fernando Henrique? E a segunda, o que move o senhor nessa luta? Porque o senhor esta vencendo uma batalha aqui no Hospital, mas ao mesmo tempo esta pedindo o livro-caixa do estado, esta chamando não sei quem para conversar, esta pedindo informação...

G - Que livro?

R - É arrecadação. O Fluxo de caixa...

G - Ah, o livro do Mino Carta? [Risos]

R - Não. O fluxo de caixa, Governador.

G - O Fluxo de Caixa, bom, mas eu não deixei de ser governador...

R - O que move o senhor nessa luta?

G - O que me move é tentar, no limite das minhas forças cumprir minha tarefa. Eu não estou insatisfeito com o fluxo de caixa não. [Risos]

R - Esta arrecadando mais Governador nesse dias que o senhor esta aqui?

G - Não que esteja arrecadando mais, mas como estamos num momento bom por fluxo de uma circunstância, onde nós temos as ações da receita, mas como uma lei que foi aprovada por todos os estados permitiu que se quitassem as dívidas com cinquenta por cento de desconto. Sobretudo em São Paulo deu um salto em quantidade muito significativa...

R - É assim que o senhor se recupera Governador? É esse o remédio do Senhor? Quer dizer, continuar governando o Estado de São Paulo?

G - [Pausa] Essa é uma pergunta de difícil resposta. Se eu te disser que sim eu já sou candidato [Risos]. Se eu te disser que não, não estaria dando importância para esse fato e eu dou uma tremenda importância para a esse fato. Tremenda importância. No dia que eu cheguei aqui, vocês me perdoem se isso me emocionar além da conta. Eu cruzei com uma senhora, um casal, razoavelmente jovem. Essa moça é de uma cidade do Rio de Janeiro, ela e o marido, o marido vinha fazer uma operação. Ela saiu do elevador, eu cruzei com ela, ai ela disse: “O senhor é o portador do meu primeiro voto da vida quando o senhor foi candidato a Presidente”. Uma coisa quase inusitada você receber uma declaração dessa no instante em que você esta entrando numa sala de operação. Depois ela, antes de ir embora, me deixou uma mensagem, [tosse] e eu vou ler para vocês, eu a recebi agora há pouco. [tosse] Ela me serve tanto que...o título é “Amigos”: “Um dia, uma pequena abertura apareceu num casulo. Um homem sentou e observou a borboleta por várias horas, conforme ela se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco. Então parecia que ela havia parado de fazer qualquer progresso. Parecia que ela tinha ido o mais longe que podia. Não conseguia avançar mais, então o homem [choro e tosse do Governador] decidiu ajudar a borboleta. Pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo, a borboleta, então, saiu facilmente, mas seu corpo estava murcho e era pequeno e tinha as asas amassadas. O homem continuou a observá-la, porque esperava que a qualquer momento as asas dela se abrissem e esticassem para serem capazes de suportar o corpo que iria se afirmar a tempo, nada aconteceu na verdade. A rigor, a borboleta passou o resto de sua vida rastejando com o corpo murcho e asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar. O que o homem em sua gentileza e vontade de ajudar não compreendia era que o casulo apertado e o esforço necessário da borboleta para passar através da pequena abertura era o modo pelo qual Deus fazia com que o fluido do corpo da borboleta fosse para suas asas, de forma que ela estaria pronta para voar uma vez que estivesse livre do casulo. Algumas vezes o esforço [choro do Governador] é justamente o que precisamos em nossa vida. Se Deus permitisse passar através de nossas vidas sem quaisquer obstáculos, Ele nos deixaria aleijados. Nós não iríamos ser tão fortes como poderíamos ter sido [choro do governador]. Nós nunca poderíamos voar. Deus deu-me dificuldades para fazer-me forte. Eu pedi sabedoria, e Deus deu-me problemas para resolver. Eu pedi prosperidade, e Deus deu-me cérebro e músculos para trabalhar. Eu pedi coragem, e Deus deu-me obstáculo para superar[choro do Governador]. Eu pedi amor, Deus deu-me pessoas com problemas para ajudar. Eu pedi favores, e Deus deu-me oportunidades. Engraçado, eu não recebi nada do que pedi, mas recebi tudo o que precisava”.[Choro do Governador]

G - Reconhecendo isso, vou correr atrás da vida. Essa operação tem uma coisa que mexeu comigo na cabeça, que acabou acontecendo. Como é que se chama esse trem? Hein!? Esse trem que eu fiquei? Como é que chama? Como é? (O médico David Uip responde: Colostomia) Colostomia. Bem eu tinha medo disso, mexeu muito comigo, embora eu nunca nem tenha comentado nem mesmo com minha esposa. Mas como é que eu posso reclamar disso se Deus me deu a vida? E quem ganha o principal, como pode discutir o acessório? [choro do Governador] Essas lágrimas não são de dor não, mas elas não são muito próprias de mim, eu sou muito mais das gritarias do que das lágrimas. De qualquer modo, tudo tem sido tão bom para mim, que o meu grau de dívida com essa sociedade chamada sociedade humana è muito grande para que eu me mantenha imóvel e não venha a permanentemente tentar lutar. Já errei muitas vezes, vou continuar errando, mas eu não posso deixar de reconhecer que mesmo sem ter pedido, eu recebi tudo o que precisava: tenho amigos, tenho bons médicos, tenho uma família que me estimula. Tive a sustentação divina, tive um atendimento médico e hospitalar de excepcional qualidade, onde a presença do povo esteve sempre presente. Sobretudo, tive uma imensa multidão humana que de todas as formas me estimulou. Morre-se todo dia, por que fazer isso comigo então? Esse é e só vai ser um obstáculo adicional. A única coisa que eu posso pedir a Deus é que eu seja capaz de ser, justificar tudo aquilo que eu recebi. Não há como pagar isso, não há como você andar nas ruas e as pessoas te abraçarem, desejarem do teu lado, contra você, parceiros, adversários, mas desejarem dar o estímulo do seu calor humano. Me desculpe se eu descambei, eu deveria ter feito isso lá do quarto, porque teria gasto as lágrimas e não precisaria ter feito aqui, mas afinal se o homem não sabe chorar, qual é a outra forma mais digna de demonstrar seus sentimentos? Então, se vocês acham que eu já aborreci vocês bastante nós podemos cair fora. Se vocês me perguntarem que dia eu vou embora, eu não sei, eu tenho impressão até que acabam me mandando embora antes do que eu esperava. Também não sei dizer se vou aceitar a oferta ou não, porque eu acho que no final se eu ganhei tudo isso eu tenho que fazer minha parte na preservação disso. Vamos esperar que a gente possa continuar fazendo isso. Há convívios tão bons, eu só posso falar uma coisa: se não fosse casado eu estava perdido. Vocês todos sabem quantas vezes eu saio do plano, quantas vezes eu saio da linha reta e parto para discussões, as vezes até acima da agressividade necessária, mas isso também faz parte da vida, a gente faz isso porque a gente tem sentimentos. Então esta ai o pouco que eu posso dizer para vocês nesse instante. Daqui desse lado esta o Davi que acaba de ser vítima de uma sórdida acusação ligada ao Hospital da Mulher. Aqui esta a Senhora Florinda, que ocasionalmente é a minha esposa [Risos], diga-se de passagem, a melhor parte da família. Aqui esta o Wadih Hueb que é médico do coração. E aqui esta meu cachorro com quem eu vou ter de conviver até o instante que puder tirar a sonda da bexiga que ainda tem. Eu espero, não tive um sofrimento atroz, graças a Deus, não foi fácil, mas não foi um sofrimento atroz. Tive dor, tive medo, tive tudo aquilo que um homem normal tem. Mas não tive um sofrimento que se possa classificar de sofrimento atroz. Então é isso minha gente, se vocês quiserem acrescentar alguma coisa, como eu disse tome a iniciativa, porque quando vocês menos perceberem o cachorro já terá me levado lá para cima de volta.

Davi Uip – Esta ótimo, muito obrigado e uma boa tarde a todos.

Fontes:

Canal 21 - Plantão TV GLOBO - Plantão Rede TV – Jornal da TV TV Record – Jornal da Record 2° Edição

Normas adotadas na transcrição:

Alguns trechos da fala e das intervenções de terceiros não puderam ser completamente transcritos. Para identificar o Entrevistado e Entrevistador usamos: R - Repórter; Inicial do primeiro nome do entrevistado – G (de Governador Mario Covas).

Foram suprimidas expressões coloquiais e repetições de palavras seguidas que não interferem na compreensão da fala e nem significam enfatização de idéias.

Foram suprimidas intervenções do entrevistador durante a fala do entrevistado quando essas não interferem e nem adicionam novas idéias.

Termos ou expressões dúbios foram inseridos entre chaves para posterior confirmação

Quanto à sintaxe, em razão da transcrição literal, as concordâncias verbais quase sempre foram mantidas tais como as expressas e algumas palavras acrescentadas para completar o sentido da frase.

São os significados dos sinais utilizados: Marcas de expressão, hesitações e quebras de raciocínio: reticências. Incompreensão de palavras ou segmentos: parênteses e ponto de interrogação (?).

Hipótese do que seu ouviu e se transcreveu: entre chaves

Expressões de sentimentos ou comentários descritivos do transcritor: entre chaves [risos]

Entoação enfática: traço abaixo da palavra: atenção básica

Títulos de livros, nomes de doenças (mesmo que populares), componentes químico-médicos: fonte itálica.

Interrupções na fita foram sinalizadas com: [interrupção da gravação]


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